Não foi abandono. Foi esgotamento. Não foi crueldade. Foi o limite.
Hoje, os portões
estão abertos — não por escolha, mas por incapacidade de continuar mantendo o
mínimo de dignidade. Cada grade que se abre leva junto um pedaço de mim que
ficou para trás. Cada passo que vocês derem lá fora vai doer aqui dentro como
se fosse o último.
Disseram que eram
meus. “Seus cães.” “Seus gatos.” Sempre no singular da responsabilidade, nunca
no plural da ajuda. Mas eles nunca foram meus. Eles são o resultado — da
indiferença, do abandono repetido, do descaso institucional, da conveniência
coletiva que empurra o problema para o quintal de alguém até esse alguém
quebrar. E eu quebrei.
Não por falta de
amor, mas por excesso de peso. Fui abrigo quando não havia política, fui comida
quando não havia programa, fui cuidado quando não havia estrutura. Fui tudo…
até deixar de ser alguém.
Agora me chamem do
que quiserem: criminoso, irresponsável, incapaz. Talvez eu seja mesmo. Mas onde
estavam os senhores — prefeito, governador, presidente, juiz — quando o número
aumentava, quando os custos explodiam, quando o corpo cansava, quando a mente
falhava? Onde estava a sociedade que aponta, mas não participa, que denuncia,
mas não acolhe, que exige, mas não sustenta?
Não peço desculpas
por ter chegado ao limite. Peço apenas que olhem para o que causaram. Porque hoje
não foi só um portão que se abriu. Foi a ilusão de que isso aqui se sustenta
sozinho.
Se Deus cuida de
todos, que cuide deles primeiro. Eles nunca escolheram nada disso.
Aos que continuam
resistindo, não se destruam também. O mundo não está ouvindo nossos pedidos.
Talvez escute, um dia, os latidos e miados espalhados pelas ruas.
Quanto a mim, sigo tentando convencer a consciência de que fiz o que era possível enquanto fui capaz. Hoje, não sou mais.
